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A quem pertence a América?

Recentemente, o cantor porto-riquenho Bad Bunny fez sucesso em sua apresentação no Super Bowl por, além de seu talento musical, enfatizar o óbvio que, no entanto, contrasta com as permanentes políticas imperialistas: a América é diversidade e multiplicidade de povos, culturas e espaços. Diante das repercussões, o debate decolonial ocupou o centro dos engajamentos nas redes sociais com diferentes perspectivas e contextos, mas com o mesmo objetivo de posicionamento ético e político contrário às políticas imperialistas que assolam o continente americano, particularmente o Sul Global, desde o século XV.

É fato que o imperialismo acontece a partir das diferentes realidades históricas e, atualmente, para além do imperialismo europeu, a América é cerceada e subjugada a partir de seu próprio continente por meio de uma política discriminatória, arbitrária e violenta assumida pelo governo dos Estados Unidos. Ao citar todos os países que compõem o continente americano, o cantor Bad Bunny convocou a todos para a diversidade que existe entre nós, americanos, e que não pode ser anulada ou classificada numa hierarquia qualitativa entre melhores e piores, superiores e inferiores.

Se em tempos passados os povos originários foram classificados como inferiores e incivilizados a partir das categorias europeias de civilização e desenvolvimento tidas como universais, tais categorias na sociedade atual são objeto de críticas e revisões por meio de diferentes autores que sustentam o pensamento decolonial, enquanto resistência na defesa dos seus direitos de ser e existir a partir de suas culturas e experiências.

O pensamento decolonial surge no final do século XX, oriundo do movimento que fazia frente ao eurocentrismo nos continentes asiático e africano, tendo alguns expoentes como Frantz Fanon e Edward Said. Na América Latina, por sua vez, o movimento ganhou força a partir da década de 1990, com alguns autores: Enrique Dussel, Aníbal Quijano, Walter Mignolo, dentre outros. De maneira objetiva, “las teorías decoloniales pretenden denunciar los procesos de colonización que no terminaron con los diversos movimientos de independencia política y que, por lo tanto, aún se mantienen vigentes en América Latina a través de numerosos factores sociopolíticos, económicos y culturales que representan y son moldeados por las herencias coloniales”.[1]

Ainda que reconheçamos os avanços dos diferentes países latino-americanos em suas democracias políticas, acordos econômicos e reconhecimentos culturais, vivemos um período de retorno às dinâmicas de domínio utilizadas pelos conquistadores europeus na relação com os povos originários. Com práticas diferentes, a intenção permanece a mesma: o controle do ser, do saber e do poder.

O atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é a caricatura mais honesta da política imperialista na atualidade. Valendo-se de seu aparato econômico e bélico, desconsidera os pactos nacionais para controlar a tudo e a todos, com a mesma bandeira imperialista de outrora: a garantia da ordem civilizacional. Para tanto, não importam direitos, limites e consensos. Não há critérios que sejam dialogados numa mesa de iguais, uma vez que os demais povos não são considerados legítimos em sua humanidade. Um exemplo é a permanente e violenta perseguição aos imigrantes residentes nos Estados Unidos. O mesmo cantor já citado, ao receber a premiação no Grammy 2026, fez um forte discurso contra a agência de imigração dos EUA: “Não somos selvagens, não somos animais, não somos alienígenas, somos humanos e somos americanos. O ódio se torna mais poderoso com mais ódio. A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor. Então, por favor, precisamos ser diferentes”.

Neste manifesto lançado ao mundo, Bad Bunny provocou o critério que constitui o consenso universal: a humanidade que nos faz humanos. Diante deste critério, toda barreira é vencida e nenhuma diversidade pode ser posta como legitimadora das violências que segregam e marginalizam vidas. A afirmação reafirma que a América não pertence a grupos privilegiados, assim como nenhum território é exclusividade daqueles que detêm o poder, seja econômico ou político. Todos somos herdeiros. E ninguém pode outorgar a si mesmo como garantidor da ordem, valendo-se disso para decidir sobre quem tem o direito de viver ou não.

Por esta razão, acredito que o desafio da ética cristã contemporânea é reafirmar o imperativo da humanidade que nos faz todos humanos, isto é, retornar ao princípio paulino que nos exorta no reconhecimento de que não há judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher, pois todos são um na caridade que constitui o mandamento maior do seguimento a Cristo (Gálatas 3,28). É no amor que não faz distinção nem levanta barreiras que se reconhecerão os discípulos do mestre (João 13,35). Diante de cenários de perseguição e violência, somos convocados ao compromisso ético do amor ao próximo.

É importante reconhecer que isso não nos faz ingênuos ou passivos diante do ódio propagado por diferentes setores da sociedade. Todavia, aquilo que nos diferencia é justamente a aposta em outras formas de viver, isto é, a esperança em alternativas de sociedade frente às violências econômicas, políticas e culturais.

Para tanto, a ética cristã também precisa estar consciente de que não é detentora da última e única palavra na mesa do diálogo, mas se une a tantas e diferentes tradições que se reúnem para propor caminhos alternativos de sociedade que trabalham em coletivo. Caso contrário, não há diferença na ação, apenas na perspectiva. É justamente no respeito e na valorização dos diferentes povos e tradições que se poderão construir novos capítulos para a humanidade. E isso se concretiza no diálogo que possibilita escutar e aprender com o outro. Colocar-se em postura humilde de reconhecimento da legitimidade de todas as vozes.

Assim como a América é um continente e, portanto, não se resume a um país, é preciso reconhecer que a comunidade humana não se resume às “potências” mundiais que exercem seu poder econômico sobre todos. É preciso resistir e insistir em alternativas diante das propostas desumanas que nos são impostas. Apoiar, incentivar e propagar as diferentes relações que atualmente despontam como possibilidades de vida para além dos imperialismos criminosos. Novas maneiras de se relacionar consigo, com o próximo, com a natureza, com os bens de consumo, etc.

A quem pertence a América? Pertence a todos que, ao invés de discriminação e barreiras, apostam na multiplicidade e diversidade de culturas; pertence àqueles que constroem pontes, ao invés de muros; pertence a todos os povos que trabalham incansavelmente por um mundo mais humano, onde haja vida digna para todas as pessoas.

[1] Santos, Thales Martins dos. 2025. “Crítica a la idolatría y defensa de la vida: propuestas ético-teológicas de la Teología de la Liberación Latinoamericana.” Journal of Moral Theology 14 (SI2): p. 126. (https://jmt.scholasticahq.com/article/146536-critica-a-la-idolatria-y-defensa-de-la-vida-propuestas-etico-teologicas-de-la-teologia-de-la-liberacion-latinoamericana).