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Esperança, performatividade e as implicações ético-teológicas da escatologia

Uma pesquisa sobre a temática da escatologia, nas suas relações práticas e implicações éticas é uma busca que venho construindo e perseguindo nos últimos anos. Uma busca que exige e pede uma reflexão atualizada sobre o tema da esperança, e mais: uma reflexão atualizada de como a teologia pode ler esta noção de esperança hoje. Quero dizer que, um exercício que tenho feito é o de usar a esperança como chave de percepção teológica, como abertura a novas realidades e um convite a novas interpretações, agora enriquecida com a abordagem sobre a performatividade. Esta atenção possibilita um encontro com novas realidades e urgências que hoje nos desafiam e nos interpelam, fazendo com que o discurso teológico adquira cada vez mais uma conotação pública e de relevância acadêmica e social, especificamente em nosso caso, de caráter libertador e decolonial.

Desta forma, observo que é possível trazer novidade ao debate acadêmico e oferecer um dado novo ao edifício teológico, e aqui é um ponto onde pretendo oferecer uma reflexão atual e é onde a minha ideia de esperança performativaencontra o seu espaço. Sim, acolhemos aquilo que foi produzido nos últimos anos sobre este tema, mas, ao mesmo tempo, apontamos para a necessidade de se buscar novas abordagens e aproximações com autores/autoras e temas em teologia e extra teologia, a fim de que o diálogo e a construção do pensamento encontrem mais relevância, capacidade de interação e ofereçam algo que seja efetivamente novo, como contribuição. Como teólogo católico, atento ao convite do papa Francisco para uma Igreja em saída, penso que também a teologia deve sair, deve ir a todas as periferias que reclamam a nossa atenção, sejam elas existenciais ou sociais. Ir ao encontro destas periferias exige saber, primeiramente, quais são e onde estão estas periferias; exige saber também quem está nestas periferias, que rostos estas pessoas têm e que esperança ou falta de esperança elas apresentam. É necessário ouvir as suas vozes, os seus gritos e lamentos, os espaços de esperança e de desesperança, de luta e de resistência, de humanidade e de ausência de vida e direitos. Aí sim a teologia se fará responsável e a esperança que tratamos será consequente.

Hoje em dia, o mundo se vê plural e desafiado de muitas formas, em nível religioso, social e político. Os grandes conflitos como as guerras nos países árabes e na África, a guerra entre Rússia e Ucrânia [e OTAN/NATO], o massacre e genocídio que estamos vendo na Faixa de Gaza, as disputas econômicas entre países, os conflitos locais e violentos em nossas cidades e a violência institucionalizada e militarizada pela polícia em nossas favelas e comunidades, a violência no campo e a violência contra os povos originários/indígenas, o aumento da desigualdade social e da pobreza, as consequências do capitalismo, o racismo, a necropolítica, as questões de gênero, a negação da vida e da ciência, a crise ecológica e os desastres ambientais, os ataques antidemocráticos e o crescimento de posturas totalitárias, neofascistas e violentas no cenário político e social, todas estas questões desafiam o conteúdo da nossa esperança e a nossa forma de esperar, logo, desafiam nossa compreensão escatológica e a nossa relação com a sociedade, portanto, elas desafiam a nossa fé. Ao lado destas questões, é possível encontrar grupos, pessoas e experiências de resistência que apontam para a construção de outra realidade, de outro mundo possível, de outra organização e construção social. Estes movimentos de resistência, observados em vários níveis, religiosos e sociais e com pessoas diversas, também se constituem por uma concepção performativa da esperança, que trazem, portanto, relevância e atenção ao que aqui apresentamos: uma esperança escatológica percebida historicamente, como força e ação de transformação do presente.

Perguntamos: o que é a esperança e onde ela se encontra, e de que forma e de que maneira é possível esperar? Quem é aquele/aquela que espera, e por que espera e o que espera? A que e a quem somos destinados? Qual é o sentido da nossa existência e o que e quem somos chamados a ser, enquanto humanos, enquanto humanidade? Qual é o sentido de toda a vida e que responsabilidade nós assumimos no cuidado de toda a criação? Entrando num acento mais teológico de nossas questões, perguntamos: se é verdade, em nível de fé, que em Cristo ressuscitado encontramos o nosso futuro e o sentido de nosso existir humano, o que, então, tem a nos dizer, tem a nos revelar a experiência pascal de um ressuscitado-crucificado que se antecipa a nós e que se deixa conhecer pela fé? Em que sentido a experiência do Cristo ressuscitado abre para nós uma nova percepção de esperança? Que sentido podemos perceber das marcas do crucificado, presentes na face e no corpo do crucificado? Que atenção oferecemos aos muitos corpos caídos, explorados, feridos e violentados de nossa sociedade, em nossas ruas e periferias? E mais: como ver o Cristo crucificado nos muitos crucificados de hoje e como chamar estas pessoas – vítimas de um sistema e de realidades de morte – a uma nova vida em Cristo, a uma experiência de vida e ressurreição? Seria a ideia de ressurreição uma força de enfrentamento, ressurgimento e transformação para uma nova vida? Que implicações isso nos traz? Nesta relação entre cruz e ressurreição (cara à teologia/escatologia), entre morte e vida, como perceber esta dimensão em uma realidade histórica marcada pela morte, marcada pelo sofrimento, à espera de vida, e vida plena? Estas são interpelações necessárias. Perguntas que se fazem urgentes e que reclamam do pensar e fazer teológicos uma atenção, uma percepção e uma posição. O sentir da esperança não permite a indiferença.

Hoje, nós nos deparamos com as novas questões que tocam o ser humano, no humanismo, no pós-humanismo e no transumanismo, todas estas questões nos desafiam a novos aprofundamentos éticos, filosóficos e teológicos; entram aí as implicações da nossa escatologia. Nos últimos três anos, tristemente, a pandemia da Covid-19 nos fez perceber que também estamos num mundo pandêmico e que este condicionamento pandêmico reclama de todos nós uma atitude concreta, com formas de mudança e de ações, com novos entendimentos e percepções da realidade, conforme apontou o papa Francisco em sua Encíclica Fratelli Tutti. Isso tudo exige uma nova forma de ver a vida e a realidade e, assim, ver, ou melhor, perceber a esperança; perceber a esperança em condições que muitas vezes não a veríamos facilmente. De frente à realidade que nos desafia, somos convidados a reviver a esperança, não como fuga do mundo, mas como força de ressurreição e de transformação da realidade presente, em uma esperança indignada, pois nós não nos conformamos com a realidade e insistimos em transformá-la na força da ressurreição: uma esperança performativa. Esta esperança se faz força, portanto, liberta e transforma, abre e convida ao novo. Entra aí o que queremos trazer com a performatividade. Uma performance que movimenta os nossos corpos feridos e machucados, mas sensíveis à vida e ao que nos rodeia, pois somos parte e fazemos parte da história. Não é só razão, nem mera vontade ou desejo, ou sentimento, mas impulso para o concreto da história, numa encarnação consciente, consistente e que se alimenta da força do Mistério que se fez carne e que habitou entre nós, que assumiu tudo e todos/todas.

Este ressuscitado-crucificado que se faz conhecer no Mistério Pascal não é uma imagem abstrata de um céu desconhecido, mas alguém que se faz perceber no concreto de nossas relações, no incômodo de nossas ausências, no afeto de nosso toque e na atenção que podemos dedicar ao outro/outra, tornando-nos próximos. O ressuscitado-crucificado se antecipa na história e nos encontra em nossa fragilidade, ali ele nos chama e nos convida a um tempo novo, com as marcas da Paixão que viveu e com as marcas da Paixão que vivemos. O ressuscitado-crucificado não nos tira do mundo, ao contrário, ele se manifesta no mundo, em nosso mundo, dando um novo sentido a nós e ao mundo em que vivemos. Tudo é Mistério Pascal, numa profunda relação de cruz e ressurreição que transforma estas realidades em vida. Nada é estranho à esperança.

Um último ponto que gostaria de colocar nesta questão é que a esperança cristã, a esperança teologal e que aqui buscamos as suas implicações éticas e práticas não pode ser vivida ou compreendida de modo isolado, individual. Esta esperança, a compreensão que se tem dela, o seu conteúdo e a sua forma de esperar, exigem a coletividade. Não é apenas aquilo que me é dado a esperar (como dom), nem somente aquilo que posso esperar (como força), mas sim um evento que me leva a buscar com quem posso esperar aquilo que me é dado a esperar. Logo, se a esperança se faz responsável, ela também se faz coletiva. Aquilo que se espera, se espera com todos, em todos e por todos. Uma esperança performativa tem esta conotação.